Estou no fundo do meu puerpério

Vislumbrei nessa quarentena uma oportunidade talvez única, de viver uma jornada jamais vivido com todos os meus filhos, que era conviver 24 horas durante os 3 primeiros meses de vida do Thiago.


Quando decidi viver mais a fundo o puerpério (aqui não cabe grau de profundeza entre pai e mãe) eu tinha uma mínima idéia do que viria pela frente, assim como se imagina como é ter o primeiro filho, mas viver esse rolê é outro assunto.

O que aconteceu foi algo transformador e ao mesmo tempo assustador, andava cansado e sem paciência sempre no meu limite. Todos que me viam falam que eu estava com cara de cansado, foi então que em uma das reuniões alguém disse: “cara de cansado não! ele está com cara de pai!”.
Um certo momento que eu que desabafei com a Flávia sobre algumas reações que eu tinha principalmente quando o Thiago chorava. Eu perdia totalmente o meu controle, não raciocinava, ficava com as mãos e pés gelados, não conseguia se quer dirigir, tudo que eu mais queria era que ele parasse, e não era fácil fazer isso. O choro em si, nunca foi algo que me incomodava, mas porque agora o Thiago me deixava desnorteado?

Teve horas que a minha vontade era jogar tudo pro alto, se esconder num canto da casa e tapar os ouvidos para não escutar mais nada

Isso me trouxe uma suposta falta de conexão com a criança, trabalho, home office tudo isso favorece para aumentar o nível de estresse. Eu não brincava com meu filho, não tirava fotos e o tempo que eu estava com ele era na tentativa de fazê-lo dormir a todo custo e o mais rápido possível. O tempo que tinha livre e sem trabalho queria dormir de preferência sem a criança por perto. Teve horas que a minha vontade era jogar tudo pro alto, se esconder num canto da casa e tapar os ouvidos para não escutar mais nada. Porque ser pai cansa e não é nada divertido.


Isso me machucava, pois com o Rafa eu brincava, tirava um monte de fotos, tinha muita disposição e me divertia. Já no Thiago, principalmente quando chorava, provocava algo no inconsciente que me remetia a pai que eu não queria ser.

Confesso e não tenho orgulho disso, mas explodi e falei bravo com ele.


O estopim foi um dia que a Flávia precisou se isolar de 20:00 às 22:30. Fiquei com Thiago para dormir, ele não deitava de forma alguma, isso me obrigou a ficar em pé com ele no meu colo com seus quase 7kg por duas horas e meia e se eu pensasse em sentar ele chorava aos berros. Confesso e não tenho orgulho disso, mas explodi e falei bravo com ele.

Naquela hora senti raiva de mim por ter explodido com recém nascido e foi então que minha ficha caiu, “estou no fundo do meu puerpério”.
Tudo então fazia sentido, impaciência, raiva, noites mal dormidas, abrir mão das minhas coisas para cuidar de filhos.


Já com entendimento do meu estado e aceitação disso, minha relação com ele mudou totalmente, estamos conectados, se divertindo, e nos descobrindo. Continuou meio atordoado com choro, mas consigo ser proativo em não deixar o gatilho da minha bomba estourar(rs) e as coisas agora estão fluindo mais leves.


A Flávia vem há algum tempo me dizendo e como foi importante a minha participação nesses primeiros meses tornando a passagem dela por puerpério mais fácil.

Se este relato fosse escrito por uma mulher talvez seria visto com mais normalidade

Se este relato fosse escrito por uma mulher talvez seria visto com mais normalidade, pois isso é o dia a dia delas nos primeiros meses de vida de uma criança. O que às vezes nós homens não conseguimos enxergar os o porquês delas estarem tão irritadas por passarem o dia todo “só” cuidando da criança, deve ser frustrante para elas.

Ter empatia com este momento em que elas vivenciam, é primordial para entendermos como são difíceis esses 3 primeiros meses e que nossa participação é indispensável para tornar este momento mais leve.
Passar por este processo foi dolorido, difícil mas é necessário, porém muito mais difícil foi abrir mão dos privilégios que nós homens temos, a todo momento sou tentado a fazer um certo corpo mole, porém fica claro que se dividindo em duas pessoas foi muito difícil, imagina deixar tudo nas costa de uma pessoa só?

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